sexta-feira, 24 de outubro de 2008
A história de Rita e Mateus - E eu queria
E eu queria dizer que te amo e que a noite é linda e que você é linda e que se pudesse eu pegava você no meu colo agora porque eu queria dizer que te amo numa noite como essa e chamar você pra dançar ou pra ver o mar e ouvir você falar sobre as coisas que você sempre fala com tanta graça com tanta alegria com tanta energia e eu queria dizer que te amo como quem toca tambor nesta noite e beijar você com a minha força de quem ama ama muito como eu amo você mas numa noite como essa eu queria dizer que te amo e então eu diria que estou aqui que estou perto e que vou pegar você no meu colo pegar você pra mim e “que tal se eu dissesse que te amo?”, perguntei um dia pra você, rindo e você riu também e não entendeu, mas eu nem sei se te amo de verdade ou se só quero você pra mim e será que tem alguma diferença se na verdade o que eu queria era botar você numa caixinha e guardar você só pra mim porque eu, ah, como eu queria dizer que te amo, Rita, que te amo, Rita, meu deus, quanto te amo, Rita.
A história de Rita e Mateus - E você já sabia
E você já sabia o que eu ia dizer antes que eu mesma soubesse do que eu ia dizer, tamanha a sintonia, e nem havia ciúmes entre nós, nem mesmo quando nos conhecemos, e foi instantâneo, e era engraçado, é até hoje surpreendente o fato de não precisarmos desfazer os compromissos mantidos com outras pessoas e o mais difícil era fazer com que meu namorado entendesse, ele dizia “tenho ciúme do Mateus” porque você Mateus virava já o meu Mateus o meu Mateus secular constância manhã tarde noite e manhã outra vez: tudo que a gente era.
A história de Rita e Mateus - O beijo naquele jardim
O beijo naquele jardim de afeto era mais que um exercício de desejo, era um afago na cabeça do cachorrinho amigo era a volta cotidiana para casa era fome ao meio-dia de uma terça-feira, (não a cama, mas a mesinha de cabeceira), quando eu percebia que não tinha ninguém esperando por nós além de nós mesmos e então você era a solidez das sete da noite, “você está tão bonita”, você me dizia, me olhando surpreso jogar a bolsa no sofá, pegar um copo d’água na geladeira, “se pudesse, casava com você e a gente envelhecia, cada um na sua cadeira”, você me dizia, e me beijava com um beijo de um desejo tão puro tão macio tão morno e sobretudo tão constante que era quase um beijo sem sexo. Era assim o beijo naquele jardim, o beijo que eu não trocaria por nenhum outro, aquele beijo.
A história de Rita e Mateus - Seus óculos
Seus óculos eram o que havia de mais secular em nossa existência e era impossível sair na rua sem eles sendo que seus óculos eram parte do meu rosto, da minha juventude, surgiram na minha vida em uma tarde de setembro quando trocamos dois ou três dedos de prosa no corredor da universidade, ainda que, é bem verdade, eu já tivesse reparado umas duas ou três vezes no par de olhos que você era, pois foi por aquelas paragens quando seus óculos (eram nossos, aqueles óculos) surgiram no azul das minhas tardes e junto e depois deles vieram você, seus contornos, suas histórias e seus tons, mas os tons não, que o tom da vida era você quem dava.
A história de Rita e Mateus - Rita
Rita, você não sabia, mas você era a dona da beleza sendo que sua beleza estava na atenção minuciosa em cada minuto precioso dos seus dias e era por isso que a natureza despejava nela tudo que lhe coubia ficando você Rita tão bonita que transformava os lugares onde estava e você fazia com que tudo que estivesse à volta dela ficasse, não só mais bonito, como mais harmônico e saudável sendo que dela saía tudo que vibrava no mundo e as pessoas procuravam aquela vibração que vinha de você, já que você difundia uma luz de pureza ingenuidade e afeto que me comovia e desde a primeira vez que vi você, Rita, andando pelo corredor da universidade não tive dúvida de que aquela pele claríssima aquele cabelo também claro, os olhos da mesma cor, o ondulado do cabelo e do corpo de Rita, que desde a primeira vez em que vi Rita e sua doçura que caminhava com ela, desde aquela tarde de setembro não tive dúvida de que Rita você seria minha não por um dia nem um mês nem mesmo um ano, mas Rita seria minha e eu de Rita pelo resto da vida e nada haveria que impedisse esse fato e fomos.
A história de Rita e Mateus - Você sabia ser bonito
Você era bonito e encantava as pessoas, sendo bonito de uma altura larga, ombros vastos, olhos escuros da cor do cabelo ondulado, que às vezes você raspava e eu achava lindo, os primeiros botões da camisa sempre abertos, os tons quase sempre pastéis de onde se via o início do pescoço, os pelos do peito; as pernas, os braços fazendo gestos, você fumava um cigarro e me olhava e sorria com a mesma boca que, você contava, tinha sido eleita “a melhor boca” no colégio e eu ouvia sempre essa história com ciúme das menininhas que conheceram você antes de mim, como ouvia as histórias sobre a casa enorme em que você morava, sobre seu sonho de ser Imperador quando crescesse, que depois mudou para Papa, e enfim, bombeiro, como todas as crianças. Eu, que sempre quis ser aeromoça, não me encantava apenas com sua beleza, que dava vontade de ficar olhando pra você, mas com o conjunto que você compunha, sentado no sofá, ou sentado numa cadeira de palhinha (a sua preferida), segurando um cigarro e dizendo aquelas coisas fascinantes, (era de solidez, sua beleza), embevecendo não só a mim, (tinha consistência, seu corpo), como ao grupo com quem a gente conversava, “que mistérios tem o Mateus pra você, Rita?”, um amigo me perguntou, uma vez. O seu fato era de beleza sendo sua beleza apenas mais um dos ímãs que atraía os olhares das pessoas a você quando eu gostava também do seu jeito de se vestir sem prestar atenção, (e o jeito desatento de tirar a roupa contando histórias prestando mais atenção no que dizia do que nas roupas que você ia jogando na poltrona), o jeito desligado de despejar a suéter no ombro, “essa suéter é minha?”, você perguntava quando eu usava suas roupas, e ria, “eu mesmo não conheço minhas roupas”. Você não era daqui, “você não é daqui desse planeta, sabia?”, eu perguntava, quando a gente, aos domingos à tarde, ficava olhando o Leblon pela janela. Você, virado para a frente, respondia que “você é outra coisa, você é única, Rita”, e esbarrava com seu ombro no meu, sem me olhar, a gente sabendo do que você estava falando, eu via você, eu dizia “eu tou te vendo”, você ria, soltava a fumaça do cigarro, e eu acreditava que nós éramos as pessoas mais felizes do mundo.
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